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[197] Breve introdução à tese da mente estendida


A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido para a sobrevivência tanto quanto nós. Esse planeta é tão semelhante ao nosso que lá você encontra um "gêmeo" (doppelgänger) seu, alguém com a sua aparência, com praticamente a mesma história que a sua, as mesmas relações com outras pessoas etc. Na Terra Gêmea, o líquido que os seus habitantes bebem para matar a sede também é chamado de “água”. Contudo, na Terra Gêmea, o líquido que os habitantes de lá chamam de “água” não é água, isto é, não é H2O, mas uma substância com uma composição química diversa, digamos, XYZ. Apesar de um falante da Terra e o seu gêmeo da Terra Gêmea terem as mesmas experiências internas (do ponto de vista fenomenológico) quando estão diante do líquido que chamam de “água”, eles têm crenças e pensamentos distintos quando, por exemplo, afirmam que "a água mata a sede". O habitante da Terra pensa em água ao expressar sinceramente a sua crença por meio desse enunciado, enquanto o seu gêmeo da Terra gêmea pensa em XYZ quando expressa sinceramente a sua crença por meio do mesmo enunciado. A diferença entre os pensamentos expressos pelo enunciado "a água mata a sede" quando dito pelo habitante da Terra e quando dito pelo habitante da Terra Gêmea se deve ao diferente histórico de relações causais que esses habitantes têm com os objetos e substâncias dos seus respectivos ambientes. Assim, muito embora o habitante da Terra e o habitante da Terra Gêmea tenham estados cerebrais semelhantes ou idênticos, o conteúdo dos seus estados mentais difere. A aparência da água para o habitante da Terra não é diferente da aparência da substância XYZ para o habitante da Terra Gêmea, mas eles têm pensamentos diferentes quando usam o termo “água” para se referir à substância que encontram em seus respectivos planetas[2].

A tese da mente estendida faz uma alegação diferente. Ela sustenta que pelo menos alguns dos estados ou processos mentais do indivíduo são constituídos pelas interações ativas que este indivíduo tem com o ambiente. É uma tese sobre estados ou processos mentais, não sobre o conteúdo de estados mentais. Essa tese pode significar, por exemplo, que algumas crenças do indivíduo se estendem para fora do seu cérebro, ou que o processo cognitivo que resulta na percepção de um tomate se estende para fora do cérebro.

A tese da mente estendida foi explicitamente introduzida por Clark e Chalmers no artigo “The Extended Mind”[3], embora versões dela possam ser encontradas na obra de Merleau-Ponty, Michael Polanyi, William James, James Jerome Gibson e outros. No artigo de Clark e Chalmers, a tese foi articulada a partir de um experimento mental. Somos convidados a imaginar um sujeito, Otto, cujos mecanismos cerebrais responsáveis pela memória de longo prazo foram severamente danificadas. Otto começa a usar um caderno de notas para registrar as informações que são relevantes para as suas tarefas cotidianas. Com o tempo, Otto se torna fluente, habilidoso e confiável na recuperação de informações registradas no caderno. Se o comparamos com Inga, uma pessoa com memória normal, parece que o caderno cumpre na cognição de Otto o mesmo papel que as partes cerebrais responsáveis pela memória de longo prazo cumprem para Inga. Imagine agora que Inga deseja ir à Casa de Cultura Mario Quintana. Ela consulta a sua memória e lembra que ela fica na Rua dos Andradas, no Centro Histórico. Se ela é confiável em recuperar essa informação, então diríamos que, antes de uma consulta, ela tem a crença não-ocorrente de que a Casa de Cultura Mario Quintana está localizada na Rua dos Andradas. Agora imagine que meses atrás Otto registrou essa informação no seu caderno depois de visitar a Casa de Cultura. Otto agora quer ir na Casa de Cultura. Ele manipula o seu caderno e em segundos recupera a informação da sua localização. Vamos supor que ele seja tão confiável quanto Inga na recuperação dessa informação. Assim, o caderno de notas parece desempenhar no ato de lembrar de Otto a mesma função[4] que as partes responsáveis pela memória de longo prazo desempenham no ato de lembrar de Inga. Não seria razoável, então, nessas condições, dizer que, antes da consulta, Otto tinha a crença não-corrente de que a Casa de Cultura Mario Quintana está localizada na Rua dos Andradas? Se sim, então parece que essa crença se estende para fora do cérebro de Otto, ela envolve o caderno que ele usa para registrar e recuperar informações relevantes. Segundo essa leitura do experimento mental de Clark e Chalmers, a crença de Otto, que é um estado mental, se estende ao seu caderno de notas[5].

Um caso mais mundano. Um sujeito está jogando Tetris e precisa decidir se a peça que aparece na parte superior da tela pode ser encaixada nas peças na parte inferior da tela. O sujeito pode imaginar essa peça rotacionada e comparar essa representação gerada com as peças na parte inferior da tela. Por meio desse processo, ele resolve a tarefa cognitiva de decidir se a peça nova pode ser encaixada ou não. Alternativamente, ele poderia, usando um controle, rotacionar a peça na parte superior da tela e comparar diretamente a peça em sua nova orientação com as peças na parte inferior da tela. Nesse caso, o indivíduo teria descarregado nas suas interações com o ambiente parte do processo cognitivo que de outro modo ele teria de levar adiante pela imaginação. Por meio de ações e intervenções no ambiente, ele realiza parte do processo que cumpre a tarefa cognitiva de decidir se a peça nova pode ou não ser encaixada nas peças na parte inferior da tela. Nesse caso, o processo cognitivo se estende para fora do cérebro, ele envolve as operações de rotacionar a figura na tela do computador.

Em ambas as situações, as interações do indivíduo com o ambiente são ativas, isto é, elas envolvem comportamentos dirigidos por intenções, por exemplo, a manipulação do caderno de notas ou a movimentação de um controle para rotacionar peças na tela. Assim, essas interações envolvem ações do indivíduo. Para Clark e Chalmers, esse é um ponto importante para distinguir o externismo ativo que eles defendem do externismo do conteúdo dos estados mentais, que eles qualificam como passivo (1998, p. 8-9). Essas considerações são importantes para distinguir e explicitar como o ambiente importa para a tese da mente estendida e para a tese do externismo de conteúdo. No caso desse último, (1) as interações do indivíduo com o ambiente não precisam ser ativas e (2) importa muito mais o histórico de interações causais do que as interações mais recentes. Por isso mesmo, se o indivíduo da Terra for transportado para a Terra Gêmea, ele continua a pensar em água quando usa referencialmente o termo "água", ainda que esteja agora interagindo com a susbstância XYZ - consequentemente, tendo crenças falsas. Em contraste, para o externismo ativo, as interações têm de ser ativas e importa mais o ambiente aqui e agora, isto é, o ambiente contemporâneo às interações ativas. O jogador de Tétris realiza agora a sua tarefa cognitiva rotacionando a peça que se encontra na parte superior da tela. Importa apenas o ambiente envolvido nas suas interações ativas e correntes.

A principal dificuldade para a tese da mente estendida, seja aplicada a estados mentais, seja aplicada a processos cognitivos, é apresentar razões para preferir a hipótese de que as interações com o ambiente constituem estados mentais e processos cognitivos ao invés da hipótese de que elas são condições causais habilitadoras, ainda que necessárias, para o vir a ser desses estados mentais e processos cognitivos[6]. No caso de Otto, poderíamos dizer que as manipulações do caderno o habilitam a perceber a informação de que a Casa de Cultura Mário Quintana se localiza na Rua dos Andradas. Essas manipulações habilitam a sua percepção, que é onde começa a cognição que o levará à crença, baseada então na percepção e não na memória, sobre a localização da Casa de Cultura. Os estados mentais de Otto não se estenderiam, então, para fora do cérebro, embora dependam casualmente do ambiente para existirem. O caso do jogador de Tetris poderia ser reinterpretado de modo semelhante.

A hipótese constitutiva é defendida pela alegação de que, ao menos em alguns casos e situações, o organismo e o ambiente estão tão fortemente acoplados um ao outro que a melhor explicação para o comportamento do organismo exige a consideração de variáveis ambientais e a melhor explicação para a alteração dessas variáveis ambientais exige a consideração de variáveis do organismo. Assim, o organismo e o ambiente estão relacionados em um sistema acoplado (coupled system). Sistemas dessa natureza, em que as relações causais entre organismo e ambiente são simétricas, isto é, características do organismo e do ambiente constrangem causalmente umas as outras ao longo do tempo, são sistemas que sustentam a leitura constitutiva da interação entre organismo e ambiente e, portanto, ao menos nesses casos, apoia a tese da mente estendida. Nesses casos, a retirada de parte do ambiente ou de parte do organismo teria um efeito desregulador no comportamento de ambos. O papel do ambiente não seria, portanto, apenas o de habilitar causalmente processos e estados cognitivos no organismo[7].

Pode-se ainda discutir por quais critérios determinamos se um sistema é acoplado ou não. Clark sugeriu critérios como o de fluidez, transparência e disponibilidade. No caso de Otto, por exemplo, a recuperação de uma crença precisa ser fluida, o que só ocorrere depois que Otto se torna experiente no uso do caderno de notas, transparente, isto é, ele não infere a partir do que vê escrito no caderno de notas que memória ele tem, mas, pela manipulação fluente do caderno, recupera diretamente certa memória, e, por fim, a recuperação precisa estar disponível, isto é, ela é confiável, na maioria das vezes em que Otto tenta recuperar uma certa memória, ele é bem sucedido.

Vemos, assim, que a tese da mente estendida[8][9] envolve pelo menos três ideias: o externismo ativo, que enfatiza a relevância do ambiente corrente para os estados e processos cognitivos, o acoplamento entre ambiente e organismo, que assinala a indispensabilidade de qualquer um dos termos para explicar o desdobramento de ambos, favorecendo a leitura constitutiva da interação, então causal e simétrica, entre organismo e ambiente, e o funcionalismo, que rejeita a relevância da distinção entre interno e externo para a compreensão da mentalidade e da cognição.

[1] O externismo semântico é uma tese sobre o significado de palavras ou termos, enquanto o externismo do conteúdo de estados mentais é uma tese mais geral sobre o conteúdo de estados mentais, isto é, estados mentais que exibem intencionalidade. Essas teses só são substancialmente distintas se não for o caso que a linguagem seja superveniente a fatos mentais, pois então seria possível que dois indivíduos com exatamente os mesmos estados mentais (o mesmo tipo de veículo e conteúdo), inclusive os mesmos pensamentos, se referissem (mas não pensassem) a coisas distintas ao usar o mesmo termo nas mesmas circunstâncias em virtude de seus diferentes históricos de interação causal com o ambiente, os quais, então, não afetariam os pensamentos e conceitos desses indivíduos. Porém, se a linguagem for superveniente a fatos mentais, então argumentos para o externismo semântico podem ser facilmente refraseados para sustentar o externismo acerca do conteúdo de estados mentais (sobre esse ponto, veja McGinn, "Charity, Interpretation, and Belief", 1977, p. 532-33). O argumento clássico para o externismo semântico encontra-se em Putnam, por exemplo, em "The meaning of ‘meaning’". In: Mind, Language and Reality: philosophical papers. Cambridge: Cambridge University Press, 1975, p. 215-271. Em obras posteriores, Putnam apresentou também argumentos para o externismo do conteúdo de estados mentais, veja, por exemplo, a discussão sobre cérebros em uma cuba em Razão, Verdade e História, onde o alvo de Putnam é a representação em geral e não apenas expressões linguísticas. Agradeço ao Vinicius Rodrigues pela sugestão de deixar mais clara a diferença entre esses dois tipos de externismos.

[2] Para uma apresentação e discussão detalhada dos argumentos de Putnam tanto para o externismo semântico quanto para o externismo mais geral do conteúdo do estados mentais, veja Schirmer dos Santos, César. "Os significados não estão na cabeça: Putnam sobre o significado e a intencionalidade". Cognitio-Estudos, V. 11, N. 1, 2014, p. 86-97.

[3] Clark, Andy & Chalmers, David. "The Extended Mind". Analysis, V. 58, N.1, 1998, p. 7-19. Um volume crítico em torno desse artigo foi organizado por Richard Menary. The Extended Mind. Cambridge, MA: The MIT Press, 2010. 

[4] É comum tomar a tese da mente estendida como comprometida com o funcionalismo, que identifica fenômenos mentais de acordo com os seus papeis funcionais e causais. Justamente por que o caderno de notas cumpre, na cognição de Otto, a mesma função que as partes do cérebro responsáveis pela memória de longo prazo cumprem na cognição de Inga, a mente pode se estender para fora do cérebro na medida em que partes do ambiente venham a cumprir as mesmas funções que eram antes cumpridas por partes do cérebro. Para uma discussão mais detalhada do papel do funcionalismo na tese da mente estendida, veja Rowlands, Mark. The New Science of the Mind: From Extended Mind to Embodied Phenomenology. Massachusetts: The MIT Press, 2010. p. 98-104.

[5] Para uma discussão mais detalhada sobre as interpretações desse experimento de pensamento, veja Rowlands, Mark. The New Science of the Mind: From Extended Mind to Embodied Phenomenology. Massachusetts: The MIT Press, 2010. p. 64-67.

[6] Veja Ned Block elaborando essa objeção nesta conferência: https://www.youtube.com/watch?v=1fG8eIJp5AY

[7] Um exemplo muito interessante de sistema acoplado envolvendo dois agentes pode ser visualizado aqui. Basicamente, dois agentes têm a tarefa de manter um certo número de ovelhas virtuais em uma determinada região da tela. Por meio de controles, eles podem repelir ovelhas que tentam sair dessa região. Inicialmente, eles tentam estratégias individuais, perseguindo ovelhas fugitivas. No entanto, elas não se mostram efetivas. Após uma sequência de interações, seus comportamentos começam a se coordenar uns com os outros estabilizando em uma estratégia de movimento oscilante em torno das ovelhas que se mostra efetiva. Para uma explicação mais detalhada desse sistema, veja Richardson, Michael J. et al. “Modeling Embedded Interpersonal and Multiagent Coordination.” Proceedings of the 1st International Conference on Complex Information Systems (January), 2016, p. 155–64.

[8] Para uma lista da bibliografia relevante sobre esse assunto, veja The Extended Mind Thesis - Oxford Bibliographies

[9] Para a discussão de uma implicação metodológica dessa tese, veja a postagem [199]. Para a discussão da extensão dessa tese para o que pode ser chamado de tese da mente socialmente estendida, veja o artigo "Socially Extending the Mind through Social Affordances".

Comentários

Claudio Reis disse…
Muito bom!
Eu ainda não havia lido nada sobre a tese da mente estendida e, no entanto, achei o texto bem claro e de fácil apreensão. Me ajudou bastante como uma introdução ao tema.

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